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Chegaste! 180 dias 🥰

Foi automático: eu andei na sua direção com o coração na mão, te abracei, e puft: eu já
não tinha mais nenhum controle sobre mim. Nem lembro da última vez que me senti
assim por alguém. Nem lembro da última vez que meus olhos ficaram marejados, só de
pensar em acordar no dia seguinte e não ver uma mensagem nova na tela do celular. Eu
li em algum lugar que quando eu encontrasse a pessoa certa, a famosa “the one”, ela
conseguiria montar todo o quebra-cabeça que havia virado meu coração. Todo
estraçalhado, fruto de amores errados. E agora eu me sinto novinha em folha. Que saudade
que eu tinha de mim mesma. Que saudade eu tinha de ser romântica. De chorar por coisas
bobas. Eu que achei que nunca mais voltaria a ser aquela menina sensível das cartas com
letra feia. Pensei que nunca mais teria vontade de planejar surpresas. De recortar coração
vermelho em cartolina. Foi da noite pro dia. Foi como recuperar a memória depois de
anos de amnésia. Sem saber onde eu estava. Para onde iria. E muito menos quem eu era.
Quando você me abraça, eu sinto como se não tivesse mais ninguém em volta. E isso
poderia muito bem ser em um show lotado num estádio de futebol. Sim, eu me sentiria
da mesma maneira. Sinto uma vontade incontrolável de te beijar, e eu poderia muito bem
passar um dia inteiro com a minha boca colada na sua. Um dia não, vários. Faz menos de
dez horas que a gente se abraçou, e parece que eu não te vejo há semanas. O que é isso?
O que é essa saudade que só cresce com o passar dos dias? Quanto mais te tenho, menos
quero te ter longe de mim. É verdade, você demorou muito. Minha vida inteira. Mas só
Deus sabe como meu coração hoje está feliz com a sua chegada. Não foi antes, e nem
depois. Foi na hora certa.


Não procure em mim os abraços dele;
Nem os afagos, ou o mesmo cheiro pela manhã;
O café preparado por mim será mais forte e (muito) mais quente.
O que ele tirou de ti, eu não poderei substituir;
São lugares que não (re)visitará comigo;
Você nunca sentirá comigo o que sentiu outrora;
Não te farei sentir-se como costumava, e está tudo bem.
Também não quero aquilo que você foi pra ele;
Não compartilharei da mesma companhia com uma mera diferença cronológica.
Quero conservar tua história e tudo o que dela resultou;
Para enfim, tomar parte.
Que você não me veja como um recomeço, nem continuação de coisa alguma;
Eu não verei em você uma oportunidade para silenciar os meus tormentos,
nem pretendo silenciar os teus.
Não seremos a salvação de um para o outro.
Seremos o que precisamos ser e isso nos bastará;
Enquanto formos capazes de derreter o sangue congelado em nossas veias.

Aniversário de São Paulo

São Paulo é como aquele namorado feio, que está totalmente fora dos seus padrões mas que você ama loucamente. Suas amigas não entendem o que você viu nele. Sua família acha que você merecia coisa melhor. Mas você gosta, oras.

Antes de apresentar para os amigos você prepara o terreno: olha, ele não é nenhum Brad Pitt, mas é muito bacana. Sou apaixonada e tenho certeza que vocês vão se dar bem. Ponto. Assim você bloqueia logo qualquer tipo de comentário infeliz ou olhar torto. Amigo que se preze não vai cometer a indelicadeza de falar uma palavra depois que você explica que gosta dele assim, do jeito que ele é.

São Paulo não é facinho. Nossa, como demorou para essa história engrenar. No começo nem você levava fé. Só pensava em balada, todos os dias da semana, tudo não passava de uma amizade superficial. Mas depois de um tempo de convivência começou a rolar um clima, vocês foram ficando mais íntimos, encontrando mais afinidades. Tantas que você não se imagina mais longe dele.

Ele te conquistou pela inteligência, pelas sacadas geniais, porque vocês se divertem muito juntos, vão jantar em restaurantes incríveis ou preparam uma comida divina em casa mesmo. Ele tem um papo ótimo e faz você rir a noite inteira até perceber que o bar já fechou e que vocês são os últimos clientes.

Claro, ele tem um monte de defeitos. Mas tem muito mais qualidades do que muito cara lindo que você conheceu antes. Quando você percebe, já relevou e aprendeu a conviver com todas as imperfeições. Elas viram paisagem e não atrapalham mais nada.

Não dá para saber se esse amor será eterno. Se vocês vão constituir família. Mas mesmo que tudo mude, que vocês estejam bem longe e nem se vejam mais, ouvir falar o nome dele sempre vai fazer você sentir um friozinho na barriga.

Parabéns e obrigada, São Paulo.

Impossível é não viver

Se te quiserem convencer de que é impossível, diz-lhes que impossível é ficares calado, impossível é não teres voz. Temos direito a viver. Acreditamos nessa certeza com todas as forças do nosso corpo e, mais ainda, com todas as forças da nossa vontade. Viver é um verbo enorme, longo. Acreditamos em todo o seu tamanho, não prescindimos de um único passo do seu/nosso caminho.

Sabemos bem que é inútil resmungar contra o ecrã do telejornal. O vidro não responde. Por isso, temos outros planos. Temos voz, tantas vozes; temos rosto, tantos rostos. As ruas hão-de receber-nos, serão pequenas para nós. Sabemos formar marés, correntes. Sabemos também que nunca nos foi oferecido nada. Cada conquista foi ganha milímetro a milímetro. Antes de estar à vista de toda a gente, prática e concreta, era sempre impossível, mas viver é acreditar. Temos direito à esperança. Esta vida pertence-nos.

Além disso, é magnífico estragar a festa aos poderosos. É divertido, saudável, faz bem à pele. Quando eles pensam que já nos distribuíram um lugar, que já está tudo decidido, que nos compraram com falinhas mansas e autocolantes, mostramos-lhes que sabemos gritar. Envergonhamo-los como as crianças de cinco anos envergonham os pais na fila do supermercado. Com a diferença grande de não sermos crianças de cinco anos e com a diferença imensa de eles não serem nossos pais porque os nossos pais, há quase quatro décadas atrás, tiveram de livrar-se dos pais deles. Ou, pelo menos, tentaram.

O único impossível é o que julgarmos que não somos capazes de construir. Temos mãos e um número sem fim de habilidades que podemos fazer com elas. Nenhum desses truques é deixá-las cair ao longo do corpo, guardá-las nos bolsos, estendê-las à caridade. Por isso, não vamos pedir, vamos exigir. Havemos de repetir as vezes que forem necessárias: temos direito a viver. Nunca duvidámos de que somos muito maiores do que o nosso currículo, o nosso tempo não é um contrato a prazo, não há recibos verdes capazes de contabilizar aquilo que valemos.

Vida, se nos estás a ouvir, sabe que caminhamos na tua direcção. A nossa liberdade cresce ao acreditarmos e nós crescemos com ela e tu, vida, cresces também. Se te quiserem convencer, vida, de que é impossível, diz-lhe que vamos todos em teu resgate, faremos o que for preciso e diz-lhes que impossível é negarem-te, camuflarem-te com números, diz-lhes que impossível é não teres voz.

José Luís Peixoto, in ‘Abraço’

Superação

Nós nos superamos e toda superação acontece após um duro período. Talvez você se supere profissionalmente (seja reconhecido, promovido…), ou ainda, é possível que você supere sua vida sedentária e se exercite. Pode ser que você supere alguns traumas e amadureça…. Desfaça enganos, esqueça amores e apazigue dores. Mais afortunado ainda é se você superar seu vazio e encontrar durante alguns instantes aquele tal sentido da vida. Bem, seja como for, querendo ou não, a vida lhe dá alguns encontrões. Temos que crescer!

Cada um sabe de suas dores e para estas não existe classificação. Toda dor dói e só sabe de seu peso quem a carrega. No entanto, o mais importante do processo é que você não está só. São pequenas forças que te carregam naqueles dias escuros: um sorriso, um abraço, uma mensagem no celular. Quem é aquele seu amigo que falta na aula para tomar um café com você? Que pega trem, ônibus, metrô… Atravessa a cidade para almoçar contigo?! Quem é aquela pessoa que lhe traz algo que você estava com vontade de comer… Recolhe as roupas que você deixou no varal… Quem é o seu pequeno refúgio? O ouro é provado no fogo. As vezes o que nos cabe é agradecer pequenos gestos de carinho e apenas isso!

Nenhuma vitória é alcançada com um único grande ato. Na vida real vencemos pequenos momentos, nos superamos aos pouquinhos e ainda temos a quem recorrer. Não carregue todo o peso sozinho. Busque refúgio! Chame um amigo para um bom papo, uma xícara de café e tudo vai dar certo!

Sobre Fanatismo

Quando tomei conhecimento de certos mecanismos psicológicos eu parei de discutir política.

O fator primário que impede que uma pessoa fanática compreenda, ou se quer escute, o outro lado é causado pelo mecanismo de crença, uma vez que o mecanismo de crença é contaminado, dificilmente essa crença será desfeita.

Isso acontece por que uma crença persistente se apoia no sistema do viés de confirmação, ou seja, a atenção será direcionada apenas para informações que confirmem a crença (mesmo que a informação for falsa), e toda informação que contradiz a crença acaba por ser ignorada (ainda que sejam verdadeiras).

Mas o maior problema é que o viés de confirmação aliado ao mecanismo de crença persistente tem um escudo protetor que não só impede que a crença seja contrariada, mas também faz com que a crença seja fortalecida, caso seja contradita por fatos comprováveis.

Ou seja, quanto mais se demonstra com fatos que a crença da pessoa está errada, mais ela vai ignorar os fatos e proteger a crença. Esse mecanismo se chama Back Fire Effect.

É como se a crença sequestrasse completamente o mecanismo mental e desligasse o mecanismo da lógica e racionalidade. Isso acontece para se defender do desconforto causado pela dissociação cognitiva, aquele sentimento ruim que acontece quando é provado que estamos errados. Ou seja, ainda que a pessoa saiba que está errada, ela prefere persistir no erro do que dar o braço a torcer.

Para saber mais pesquisem sobre dissociação cognitiva, viés de confirmação, back fire effect e crenças persistentes.

Nunes, projeto nossa Vez e Voz

DEUS EM TODOS

O texto anterior prova que existe dentro da comunidade Evangélica aqueles que sobrevivem no verdadeiro ensinamento cristão. Não sei se são muitos, mas enfim… soube até de um Centro Espírita aqui em Recife onde os DIRIGENTES estavam pregando que certo candidato é “um enviado de Deus”. Espiritismo, cujo lema deveria ser “a Fé raciocinada”!! Vejam só onde chegamos…

Jesus não se colocou acima de ninguém. Ironicamente, o único momento onde ele esteve literalmente no alto foi lá na cruz, com a também irônica tábua de “Rei dos judeus“. Existe em nossa memória coletiva a frase “Amar a Deus sobre todas as coisas“, mas a Verdade é que essa frase sequer existe na Bíblia! O versículo correto diz:

Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o teu entendimento. Este é maior e o primeiro mandamento. O Segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos.

Mateus 22:37-30

Conseguem perceber a diferença? Não é algo de baixo pra cima, nem de cima pra baixo. O amor parte de DENTRO DE VOCÊ em direção NÃO ESPECIFICADA a Deus. E depois Jesus nos URGE a amar ao próximo da mesma maneira como amamos a nós mesmos! E isso é o exato oposto do que temos visto nessas eleições, onde a tônica é zombar, odiar, desprezar e até mesmo matar o diferente! Me pergunto COMO isso encontra acolhimento dentro da(s) casa(s) de Deus??? Um padre católico foi falar sobre a fome que destrói esse país e foi vaiado dentro da Basílica de Nossa Senhora da Aparecida! No dia dela!! Tudo porque o candidato dessas pessoas não acredita que exista fome em seu governo, assim como acredita que não exista corrupção. E todos têm de aceitar, e quem falar o contrário deve ser escorraçado! O Rei está nu e ninguém pode dizer.

Quando se coloca “Deus acima de tudo” estamos adentrando o território do fanatismo religioso. Acima do que? Das Leis? da sociedade? Do bem e do mal? Então seguindo essa lógica o fanático, que se considera um devoto de Deus, pensa “devo garantir que os Desígnios do Senhor devam ser respeitados, nem que pra isso eu dê minha Vida”. E tais desígnios, claro, são todos baseados em interpretações muito particulares e convenientes da Bíblia, assim como os grupos fanáticos do oriente médio fazem com o Islã. E imediatamente esta pessoa estará se colocando acima da Lei, da sociedade, do bem e do mal PORQUE essa pessoa é um “enviado de Deus”. Entendem?

Não estamos distantes de nos tornarmos uma Teocracia como o Afeganistão (com direito a perseguição de minorias, desprezo pelas mulheres e milícia armada). Resta saber se esse vai ser o Karma coletivo desse país, a ser decidido nas urnas.

Deus Acima de Todos

Reproduzo (com permissão) o texto do Pastor Osvir Guimarães Thomaz, escrito em março de 2020, durante a pandemia, e que ficou ainda mais atual neste fatídico ano de eleições:

“DEUS ACIMA DE TODOS”

Essa tem sido uma expressão que legitima alguns religiosos a entenderem que estão vivendo debaixo daquilo que foi idealizado por Deus. Vejo nessa expressão um grande equívoco e uma prova cabal da incompreensão de seguimentos religiosos que se apegam a uma mitificação de pessoas tal qual a percepção histórica das escrituras, onde se submetiam ao “ungido”. Essa expressão, no contexto atual, não passa de um grande sofisma que invadiu a mente de muitos religiosos, e digo religiosos por não perceber em suas posturas e discursos nada que se aproxime da verdadeira conversão.

Tenho chamado a atenção para o necessário entendimento sobre o que eu chamo do processo de cristianização da Igreja. A Igreja precisa urgente tornar-se cristã na prática, pois no discurso já tem abandonado em muito, uma vez que muitos se alinham ao discurso de ódio, de violência, de preconceito, de rupturas e inobservância de princípios basilares da fé cristã. Aliás, tornou-se partidária. Acredita-se que é necessário representação política, quando as escrituras sagradas registram que as portas do inferno não prevaleceriam. A Igreja de Cristo não precisa ser defendida, Ela é simplesmente de Cristo.

Sou um observador e estudioso da retórica. E por isso busco sempre fazer a análise crítica do discurso. E esse discurso de Deus acima de todos tem dado a legitimidade para um “vale tudo” aqui embaixo. Vale o ódio, vale o preconceito e vale a intolerância, pois afinal Deus está acima. A igreja tornou-se sorrateiramente sectária. Portanto, ao invés de Deus acima de todos deveríamos desejar Deus em todos. Habitando em todos. Cristo em nós, esperança da glória. Será que não está faltando Cristo em nós e não acima de nós?

Como seríamos se Ele estivesse em nós? Em nosso povo? Seríamos tolerantes, caridosos. Misericordiosos e amáveis. Seríamos plurais. Pois Ele veio para todos, brancos, pretos, pobres, ricos, liberais, conservadores… Há lugar para todos na Casa do Pai.

DEUS EM TODOS.

“Acima” aponta para fora. “Em” aponta para dentro. Um advérbio errado muda todo o sentido.

FIM

Alice (não me escreva aquela carta de amor)

Querida Carol,

andava há meses a namorar uma caneta ou a coragem para pegar no telefone e te ligar, mas é quase impossível combater o medo que sinto que me recuses e desligues o telefone antes de ouvires duas palavras que sejam…

Decidi escrever, assim nem saberei se estás a ler-me ou não e fico na ilusão que não rasgarás esta carta antes de a abrires!

Sei que o que fiz não tem perdão mas preciso que me perdoes. É um novo ano, um novo começo, se toda a gente acredita, eu também preciso acreditar!

Diz-me…é verdade que me esqueceste? Que esse sorriso na tua face é verdadeiro?

Eu sei que o tempo não pára, mas a saudade faz tantas vezes as coisas pararem no tempo. Parou o teu? Tempo…quero dizer…

A saudade é assim um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida…

Carol…a minha saudade é a minha alma a gritar onde quer voltar!

A saudade é não saber. E eu já não sei o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não sei como encontrar tarefas que me cessem o pensamento, não sei como frear as lágrimas diante de uma música, não sei como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Perdoa-me…perdoa-me por te amar de repente sem nunca ter descoberto o quanto já te amava antes…

Perdoa-me as horas que passei à sombra dos teus beijos, os minutos distraidos ao som do teu toque, os segundos perdidos no teu aroma…pêssego…

Eu não sei perder. Nunca perdi e tu sabes disso. Este sabor amargo que pinta os meus dias já não me abandona…

Sei o que me vai alimentar e fazer sobreviver. É aguardar a chegada de uma resposta tua que eu sei que não virá. Mas vou ter hipóteses, nunca saberei se o carteiro falhou…se me enviaste direto para o caixote do lixo ou se o teu coração amoleçeu quando me reencontras-te mas não me queres dizer…

Guarda estas palavras que te escrevi…se não podes perdoar-me pelo menos não esqueças que existi.

Fui real….Sou real…

Se já não me amas, pelo menos odeia-me…

Mas sente alguma coisa por mim…

Sempre teu,

João Miguel

Xena

Tem uma cena no livro “Comer, Rezar, Amar” da Elizabeth Gilbert, em que ela está na Índia e resolve fazer um voto de silêncio. Ela não quer ser mais a pessoa tagarela, que não para quieta e está sempre envolvida em tudo. Ela quer ser a pessoa plácida e contemplativa no fundo da sala, que nada fala e só observa tudo com sabedoria. Seu projeto de fazer voto de silêncio vai por água abaixo porque em seguida ela é escalada para ser a representante de acolhimento de uma nova leva de pessoas que chegavam para o retiro. Uma função que exige toda sua comunicação e tagarelice. O que ela aprende com isso é que o Universo tem um plano para você, do jeitinho que você é.

Eu me identifiquei tanto com essa cena! Minha vida inteira oscilei entre minha personalidade forte e espaçosa, e um desejo de controle, de me transformar em uma pessoa contida, recatada, sutil. Em me transformar em alguém que eu não sou. Eu nunca vou ser a garota silenciosa no fundo da sala.

Nas últimas semanas ando pensando muito sobre pequenas cobranças que sofro na rotina de relacionamentos que tenho. É muito comum ouvir de algum amigo, ou colega, ou familiar; sempre pessoas muito bem intencionadas e que são movidas por um desejo genuíno de me ver bem: “Carol, você é muito tagarela!”, “Você tem que ser mais delicada”, “Você não pode ser assim. Assusta as pessoas.”, “Carol, você é meio barraqueira.”.

Quer saber se eu falo muito? Falo, quando estou feliz e em um ambiente que me sinto segura, falo pra caramba.

Se eu sou barraqueira? Não, não sou. Na verdade, tenho horror à escândalos.

Se eu saio por aí agredindo as pessoas? Não, não saio.

Agora, quer saber se eu sou uma garota de fala mansa, com opiniões diplomáticas e controladas e que se esforça para conquistar a aprovação e o carinho de todo mundo? Também não, não sou.

Eu sou uma garota espaçosa. Tenho essa sede, essa gana de vida que aspiro todo o ar à minha volta. Falo, penso, conto história, questiono. Tenho uma sinceridade cortante que costuma pegar as pessoas de surpresa, e nenhum problema em ser contraditória. Não tenho medo de polêmica e acho um tesão quando tem gente discordando. Se eu discordo, vou discordar de verdade. Não largo a coisa no meio do caminho só para fazer a fofa. Não sou do tipo que coloca panos quentes para mudar o assunto para o clima no final de semana e pedir mais uma taça de chardonnay. Eu demorei muito tempo (muito mesmo) para aprender que, para a maioria das pessoas, não é legal ser assim como eu sou. Invariavelmente alguém vai dizer que isso incomoda, que é desagradável. Que “você é uma menina tão bonita”, as pessoas gostariam mais de mim se eu não fizesse isso. E, sabe? Isso é bem desconcertante. Porque geralmente esses comportamentos são pontuados quando você está se sentindo mais inteira, mais autêntica. Acabam sendo um balde de água fria. E daí dá um sentimento bem ruim quando dizem essas coisas. Eu me sinto culpada, inadequada. E dá vontade de fazer voto de silêncio e ficar quietinha no fundo da sala.

Comecei a perceber que de certa forma era isso que eu fazia. Me fechava na ostra, fugia do mundo. Passava a achar as relações humanas difíceis e sofríveis. Afundava por alguns dias no sofá, até tentar sair novamente. Ficava por um tempo controlando meus gestos, minhas palavras, minhas expressões. Repetia tudo o que eu dizia mentalmente para ver se não tinha nada ali que pudesse assustar as pessoas, que pudesse fazer de mim uma pessoa horrível. Depois de um tempo, relaxava. E voltava a ser um vulcão.

A ideia de que uma mulher tenha um conjunto de gestos de conduta que ela deva seguir para ser agradável para a sociedade é tão opressora quanto tantas outras formas físicas de submissão. Quando se cobra de alguém que ela seja mais delicada, mais feminina, mais suave (como alguma personagem de Downtown Abbey), está se castrando o selfie dessa pessoa, sua maior essência.

Claro, existem habilidade sociais, educação, gentileza. Essas são coisas que devem sim ser cobradas e incentivadas. São muito bem-vindas e necessárias. Não estou falando disso. Estou falando de personalidade. Eu demorei muitos anos para entender que, se uma pessoa se assusta com minha sinceridade, é ela quem está assustada e eu não tenho nada a ver com isso. Se uma pessoa se choca com minha espontaneidade, o problema é dela e eu não tenho nada a ver com isso. Principalmente, se uma pessoa me sugere ser mais contida e delicada, ela está oprimindo as coisas que fazem de mim quem sou.

Lembrei de um velhinho japonês que lia mão na Liberdade uma vez, e me disse que eu não me casaria porque eu tinha a boca muito grande. Que homem não gostava de boca muito grande. Que eu devia ficar de boca fechada para arrumar um homem. Acho que talvez o velhinho esteja certo. Talvez ainda tenhamos uma sociedade em que a maioria dos homens não estejam preparados para alguém como eu sou, e para esses seja necessário esconder isso. Mas exatamente por ser quem eu sou, eu prefiro ficar sozinha a ter que fechar a boca para atender expectativas. As mulheres também. Talvez de tanto ouvirem que devem falar menos, ter menos opinião e serem mais delicadas, nem percebem que estão reproduzindo comigo as opressões que sofreram.

Eu acredito que o Universo tem um plano para mim, do jeitinho que eu sou. Um pouco espalhafatosa, faladeira, cheia de opinião. É assim que eu sou. Por favor, não me peça para ser mais delicada, mais contida. Não me peça para ser a pessoa plácida e contemplativa no fundo da sala, que nada fala e só observa tudo com sabedoria. Não me peça para ser menos do que eu sou. É agressivo, e atrapalha os planos do Universo para mim.

Talvez seja orgulho/a personalidade forte/ou ascendência em gêmeos

A verdade é que nunca mendiguei afeto. A primeira vez que me apaixonei foi por um vizinho, me declarei e ele disse que gostava da outra vizinha. Ficou nisso! não corri atrás, não fiz cena, guerra ou algo assim. Até o ajudei com a menina. Meu primeiro namorado me traiu porque me achava fria demais: eu não era ciumenta, não fazia cena…dizia que meus olhos eram distantes (levei-o pra conhecer meu pais, conheci a mãe dele, dava presentes, mimava, escrevia cartas, músicas e ainda dei pra ele… e mesmo assim eu era distante). E quando terminamos ele disse: viu! você não se importa, nunca me amou!
Eu sempre fui sincera com sentimentos: não sei fingir: gosto ou não gosto!
Se sinto algo por alguém eu falo e só espero duas coisas: sim ou não… às vezes tem aqueles que diz que é complicado ou não é você sou eu e bla bla.
Eu sigo a vida, posso até sentir uma dor absurda por dentro (chorar, ver filmes, comer chocolate, dançar, malhar…), mas meu “orgulho” ou falta dele, não me faz correr atrás. No primeiro sinal de desinteresse eu saio de cena, simples assim.
Agora se você corresponder (não na mesma intensidade), aí amigo eu viro a pisciana que todos falam: pau pra toda obra e isso é em todos os campos afetivos ou profissional. Entrega total!
E o por quê de tudo isso?
Porque a maioria das pessoas esperam isso de mim: que eu corra atrás.
Vai ver li tanto Jane Austen que virei a Elizabeth!

Inadimplência do amor

Não existe relacionamento amoroso fácil. Mente quem diga que vive ou viveu um mar de rosas na dura tarefa da convivência diária de um casamento, da rotina de um namoro, da paciência de uma amizade. Problemas surgem e são necessários para um refinamento dos sentimentos. Tirando a obsessão, o resto é contornável.

Vejo casais se formando e tendo DRs cedo demais. Acho imprescindível o diálogo. Aparar arestas é o que faz os relacionamentos durarem. Saber os limites do outro é importantíssimo. Mas aí vem aquela cobrança gratuita de sentimentos. Mulheres (não generalizando) se doam mais e se sentem frustradas por que o parceiro não retribui a altura do que ela almeja. Dou um exemplo familiar, intimo. Minha avó era o tipo de mocinha que via novelas. Criou uma expectativa sobre príncipes encantados que não encontrou em meu avô. Eles se gostaram, se casaram, mas ele não era o tipo de cara amoroso, grudento, lambão. Demorou muitos anos de casamento para que ela compreendesse que não existia aquele tipo descrito nas novelas.

A realidade era mais dura e ela não esperava por isso. Mas acabou entendendo o jeito dele de ser, a forma de agradar que não era com cartas românticas, flores e serenatas. Viveram por quase 50 anos juntos. Hoje, viúvo, é que ele a entendeu e talvez tenha se arrependido de não ter tentado ser um pouco daquilo que ela idealizou.

Sou uma boa ouvinte, não sei se boa conselheira, mas consigo compreender o emaranhado em que as pessoas se metem. Estar fora de uma situação da clareza. Mas difícil é convencer as pessoas que estão erradas.

Não sou a favor da compra de amor. Qualquer relacionamento que se baseia em ganhos financeiros está fadado ao fracasso. Homens que cobrem mulheres de presentes, mulheres que compram o amor dos caras dando mais do que podem inevitavelmente cobrarão preços altíssimos somados de juros. Entre os gays, vejo caras sendo uma farsa montada. Belas roupas, belos carros, mas sem uma única grama da capacidade de se relacionar por longos períodos. Um círculo vicioso de busca e fracasso.

Não se pode usar as experiências pessoais para determinar que você sabe tudo sobre amor. Cada relacionamento tem uma impressão digital própria, por que se trata de outro diferente daquele último, do penúltimo, e assim por diante, de acordo com sua incapacidade de manter namoros ou casamentos por longas datas. Trocar muito de parceiros vicia…rs. Dá apenas para não cometermos os mesmos erros, caso sejamos expertos.

Admiro imensamente casais que conseguem atingir, 10, 20, 30, 40 anos juntos. É quase metade da nossa vida adulta, e conviver diariamente com alguém, dormir e acordar, saber cada passo, cada linha que aquela pessoa escreve e ainda assim querer continuar tudo isso no dia seguinte é uma dadiva que todos merecemos.

Pessoas se frustram tão facilmente, apenas por que não conseguem enxergar que o relacionamento tem que se basear em confiança, respeito. Tudo o que for acordado e definido por ambos tá valendo. Não pode é comprar e não pagar. A INADIMPLÊNCIA DO AMOR faz com que o outro cobre, e a cobrança começa pequena, mas os juros crescem mais que cartão de credito, e chega um momento que a dívida é tão grande que fica insustentável manter o amor, e ele morre.